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Antagonismo direto e biocontrole da podridão-mole-do-tomateiro pelo uso de procariotas

Direct antagonism and biocontrol of tomato soft rot using prokaryotes

Resumos

O objetivo deste trabalho foi avaliar procariotas quanto ao potencial de antagonismo direto para o biocontrole da podridão-mole-do-tomateiro (Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum). Avaliaram-se 45 isolados bacterianos pelo teste de antibiose contra o patógeno. Foram feitos dois ensaios em que sementes de tomate (Lycopersicon esculentum Mill.) cv. Santa Clara foram infectadas com isolados antagônicos. As mudas foram transplantadas para solos infestados com suspensões de propágulos P. carotovorum com OD540 de 0,45 e 0,65. Os antagonistas UFV-0005, UFV-043, UFV-BF112 e UFV-0006 foram eficientes em proteger plantas de tomateiro contra a podridão-mole.

Lycopersicon esculentum; Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum; antibiose; controle biológico; rizobactérias


This work aimed to evaluate prokaryotes to provide direct antagonism and biocontrol of tomato soft rot (Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum). Forty-five bacterial isolates previously selected for biological control of several tomato (Lycopersicon esculentum Mill.) diseases were evaluated using an antibiosis test. 'Santa Clara' tomato seeds were inoculated with potential antagonist isolates and transplanted to a soil infested with the pathogen, in two asseys, at a propagule concentration of OD540 0.45 and 0.65. Antagonists UFV-0005, UFV-043, UFV-BF112, and UFV-0006 protected tomato plants against soft rot disease.

Lycopersicon esculentum; Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum; antibiosis; biological control; rhizobacteria


NOTAS CIENTÍFICAS

Antagonismo direto e biocontrole da podridão-mole-do-tomateiro pelo uso de procariotas

Direct antagonism and biocontrol of tomato soft rot using prokaryotes

Victor Rafael BarraI; Reginaldo da Silva RomeiroI; Flávio Augusto de Oliveira GarciaI; Andréa Bittencourt MouraII; Harllen Sandro Alves SilvaIII; Henrique Lopes MendonçaI; Bernardo de Almeida Halfeld-VieiraIV

IUniversidade Federal de Viçosa, Departamento de Fitopatologia, CEP 36570-000 Viçosa, MG. E-mail: victorbarra@gmail.com, rromeiro@ufv.br, msfa_garcia@yahoo.com.br, henlopes@ufv.br

IIUniversidade Federal de Pelotas, Departamento de Fitossanidade, CEP 96001-970 Pelotas, RS. E-mail: andreabittencourtmoura@hotmail.com

IIIEmbrapa Mandioca e Fruticultura, Rua Embrapa, s/nº , CEP 44380-000 Cruz das Almas, BA. E-mail: harllen@cnpmf.embrapa.br

IVEmbrapa Roraima, BR-174, Km 8, Bairro Industrial, CEP 69301-970 Boa Vista, RR. E-mail: halfeld@cpafrr.embrapa.br

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar procariotas quanto ao potencial de antagonismo direto para o biocontrole da podridão-mole-do-tomateiro (Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum). Avaliaram-se 45 isolados bacterianos pelo teste de antibiose contra o patógeno. Foram feitos dois ensaios em que sementes de tomate (Lycopersicon esculentum Mill.) cv. Santa Clara foram infectadas com isolados antagônicos. As mudas foram transplantadas para solos infestados com suspensões de propágulos P. carotovorum com OD540 de 0,45 e 0,65. Os antagonistas UFV-0005, UFV-043, UFV-BF112 e UFV-0006 foram eficientes em proteger plantas de tomateiro contra a podridão-mole.

Termos para indexação:Lycopersicon esculentum, Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum, antibiose, controle biológico, rizobactérias.

ABSTRACT

This work aimed to evaluate prokaryotes to provide direct antagonism and biocontrol of tomato soft rot (Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum). Forty-five bacterial isolates previously selected for biological control of several tomato (Lycopersicon esculentum Mill.) diseases were evaluated using an antibiosis test. 'Santa Clara' tomato seeds were inoculated with potential antagonist isolates and transplanted to a soil infested with the pathogen, in two asseys, at a propagule concentration of OD540 0.45 and 0.65. Antagonists UFV-0005, UFV-043, UFV-BF112, and UFV-0006 protected tomato plants against soft rot disease.

Index terms:Lycopersicon esculentum, Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum, antibiosis, biological control, rhizobacteria.

Doenças bacterianas são uma das principais causas de redução da produção em lavouras (Romeiro, 2005). Não existem produtos eficientes para o controle da maioria dessas doenças. O controle tem sido feito por meio de práticas culturais. O controle biológico tem demonstrado ser alternativa para o manejo de bacterioses em plantas (Romeiro, 2007a).

Há relatos na literatura do uso do controle biológico com sucesso, a exemplo do biocontrole da galha-bacteriana [Agrobacterium tumefaciens (Smith & Townsend 1907) Conn 1942] pelo isolado bacteriocinogênico de A. radiobacter (Kerr, 1980; Kerr & Tate, 1984). Existem também relatos com biocontrole de doenças de plantas promovido por espécies de Pseudomonas sp. (Chin-a-Woeng et al., 2003).

No caso da podridão-mole, causada por Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum (Jones 1901) Hauben et al. 1999 emend. Gardan et al. 2003, o uso do controle biológico tem sido tentado por muitos pesquisadores (Abdelghafar & Abdelsayed, 1997; Dong et al., 2004; Zamanian et al., 2005; Cladera-Olivera et al., 2006).

Especificamente para a cultura do tomateiro (Lycopersicon esculentum Mill.), não há relatos do uso do biocontrole da doença nem são conhecidas cultivares resistentes à doença.

Este trabalho teve como objetivos avaliar procariotas com potencial para o antagonismo direto e biocontrole da podridão-mole-do-tomateiro e testar a eficácia do biocontrole dessa doença.

A bactéria fitopatogênica P. carotovorum subsp. carotovorum (Pcc) e os 45 agentes de biocontrole foram obtidos da coleção de microrganismos do Laboratório de Bacteriologia de Plantas e Controle Biológico do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa. Todos os procariotas foram cultivados no meio 523 (Kado & Heskett, 1970), a 28ºC, por 24 horas (Romeiro, 2001).

Para o ensaio de antibiose in vitro, os agentes de biocontrole foram repicados em placas de Petri com o meio 523 sólido, em quatro pontos equidistantes, e incubados por 48 horas, a 28ºC. Após o crescimento dos procariotas, as placas foram invertidas, e depositou-se 1 mL de clorofórmio na superfície interna da tampa de cada uma delas. Aguardou-se 20 min para que as colônias do antagonista fossem mortas. As placas foram, então, entreabertas por 30 min para eliminação do resíduo de clorofórmio. A cada placa, adicionaram-se 5 mL de meio 523 semi-sólido fundente (48ºC) com 0,1mL de suspensão de células de P.carotovorum subsp. carotovorum, de modo a formar uma sobrecamada de aproximadamente 1 mm de espessura. As placas foram incubadas novamente, da mesma forma descrita anteriormente, e examinadas periodicamente quanto à presença de halos de inibição.

Foram realizados dois bioensaios in vivo em câmara de crescimento, com temperatura ajustada para 30ºC, em dezembro de 2005 e abril de 2006, com 14 isolados selecionados no ensaio in vitro de antagonismo à Pcc. O delineamento foi o inteiramente casualizado, com dez repetições, e a parcela esperimental foi constituída de duas plantas. Sementes de tomate cv. Santa Clara foram infectadas com propágulos dos agentes de biocontrole (Romeiro, 2007b) e semeadas em bandejas com substrato à base de vermiculita. Após o aparecimento do primeiro par de folhas verdadeiras, as plântulas foram transplantadas para vasos com solo infestado com Pcc. O tratamento-controle, nos dois ensaios, foi constituído por plantas oriundas de sementes imersas em água destilada pelo mesmo tempo utilizado na infestação com os agentes de biocontrole.

No primeiro ensaio, as plantas foram transplantadas para solo infestado com suspensão de propágulos de Pcc com OD540 de 0,45, 27 dias após a germinação. No segundo experimento, a suspensão de propágulos teve OD540 de 0,65, e o transplante das mudas foi realizado 24 dias após a germinação. Nos dois ensaios, avaliou-se a severidade da doença a partir da massa de matéria seca da parte aérea das plantas. Considerou-se a severidade inversamente proporcional à massa, já que a doença leva à perda de massa interna do caule das plantas, sintoma conhecido como talo oco. A escolha dessa variável como critério para medir a severidade foi feita com base no critério da praticidade. A avaliação dos sintomas causados por Pcc em plantas tem sido feita pelo tamanho de lesões (Chapon et al., 2002), incidência (Reinoso-Pozo et al., 2006) e percentual de área lesionada (Cladera-Olivera et al., 2006). Nenhum desses critérios, porém, é padrão para a avaliação da podridão causada por P. carotovorum subsp. carotovorum. Para a confirmação da etiologia bacteriana da podridão, as plantas que exibiam ou não os sintomas tiveram seções de seus caules submetidas ao teste de exsudação em gota (Romeiro, 2007b).

No ensaio de antibiose, dos 45 procariotas testados, 14 foram capazes de inibir o crescimento in vitro de P. carotovorum subsp. carotovorum (Tabela 1). A grande maioria dos 45 procariotas usados nunca havia sido testada contra Pcc, mas já havia sido testada contra patógenos da parte aérea (Moura & Romeiro, 1999; Halfeld-Vieira et al., 2004; Silva et al., 2004; Mendonça, 2006). A P. carotovorum subsp. carotovorum é um patógeno agressivo, capaz de fazer os tecidos infectados entrarem em colapso em poucas horas. Para que uma rizobactéria seja capaz de controlá-lo, é preciso que o controle seja por meio de antagonismo direto, pela produção de substâncias antimicrobianas às quais a Pcc seja sensível. O biocontrole de P. carotovorum subsp. carotovorum por esse mecanismo é amplamente relatado na literatura (Liao, 1989; Li et al., 2004; Alvarado et al., 2007; Roh et al., 2009).

Nos dois ensaios in vivo, as rizobactérias UFV-006 e UFV-043 foram os procariotas que mais se destacaram, embora outros tratamentos também tenham sido estatisticamente eficazes no controle do patógeno (Figura 1). O tratamento-controle em ambos os ensaios foi o que apresentou maior intensidade de podridão-mole, o que foi evidenciado pela menor massa de matéria seca da parte aérea.


Os isolamentos UFV-006 e UFV-043 apresentam potencial para uso no controle biológico de P. carotovorum subsp. carotovorum em tomateiro.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelo financiamento da pesquisa.

Recebido em 29 de setembro de 2008 e aprovado em 30 de janeiro de 2009

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Maio 2009
  • Data do Fascículo
    Mar 2009

Histórico

  • Aceito
    30 Jan 2009
  • Recebido
    29 Set 2008
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